Agonia
Textos

Agonia.
Um conto de Goush M.

Era uma quente noite de novembro ; calma e sem vento. Dentro do apartamento silencioso, iluminado apenas pelas luzes da rua, ela estava lá, silenciosa e sozinha, deitada no sofá. Sua longa camisola vermelha, transparente, moldava a volúpia do seu corpo. Seus olhos fechados faziam adivinhar ao mesmo tempo uma expressão de prazer e de melancolia. A pele rosada, suave como cetim, evocava o mais suculento dos pêssegos. Vinte minutos já tinham se passado mas ela continuava inerte no mesmo lugar ; as pernas dobradas em posição fetal. Quarenta minutos e as dobras da expressão do seu rosto já se revelavam mais marcantes. O que ela sentia ? Prazer ? Dor ? Difícil de saber precisamente, viu que o prazer as vezes pode ser irmão da dor. O que ela estava pensando ? Na paixão pela pessoa amada ? numa tragédia passada ? Um observador invisível seria incapaz de se aventurar à uma resposta.

De súbito a campainha estridente toca e age como uma seringa de adrenalina. Aquele corpo, segundos atrás imóvel, ganha vida ; como se ele imergisse de profundezas abissais e o mistério que existia como um véu em volta de sua face cede e dà lugar a uma nítida expressão de ansiedade. Ela se levanta de um bonde só ; uma cobra em pleno bote, um jaguar numa perfeita aceleração. Sem se preocupar com as formas da sua plástica reveladas pelo fino tecido ela corre de modo a abrir a porta ao entregador do Mister Pizza que chega com o motivo de tanta agonia : Uma pizza mezzo quatro-queijos, mezzo calabreza gigantona, um x-tudo sem ovo e um litro de coca ! Só pra ela ! !

 



Fiquem à vontade para se expressar.