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Da
Contra-cultura à loucura
Não é de hoje que ouvimos falar em termos
como "alternativo", "underground", "contracultura",
mas será que nós sabemos realmente o que estes termos
significam? Quando eu menciono nós estou propositadamente
incluindo aqueles próprios que se dizem alternativos,
undergrounds ou contraculturais. Somos "eles" realmente
o que dizem(os), ou estamos caindo na velha retórica
ideológica? A partir de onde deixamos de ser "rebeldes
sem causas" e passamos a ser verdadeiramente alternativos,
ou melhor. É possível que sejamos realmente alternativos?
Vejamos,
para entendermos isso é necessário que saibamos primeiro
o que é alternativo, o que é contracultura. Numa primeira
análise parece óbvio - contracultura é o que vai de
encontro a cultura, mas que cultura é essa? A nossa
sociedade é, está e sempre foi edificada em uma interpretação
da realidade, o que isso implica? As instituições sociais,
não estou aqui me referindo aos prédios e organizações
governamentais, mas entenda-se como as convenções da
ordem das crenças, das "opiniões" , das "verdades" e
valores de nossa sociedade. Ora, desde que nascemos
nós somos envoltos involuntariamente nessa "construção"
; por exemplo, quando uma criança nasce do sexo masculino
suas roupinhas serão azuis, se mulher serão cor-de-rosa,
tudo isso graças a uma convenção da nossa sociedade.
Isso é apenas um pequeno exemplo do que vem a ser esse
todo complexo formado pelas relações entre nós, seres
da espécie humana.
Então,
a sociedade, desde sua constituição, cria suas convenções
às quais estamos sujeitos desde o nosso nascimento (ou
até antes, como defende Freud) até a nossa morte, mas
ao longo de nossa existência em sociedade essa própria
"ordem" nos possibilita, através de maneiras de pensamento
e reflexão (a ciência ou a filosofia, por exemplo),
questionar esse conjunto de valores impostos a todos
os seres humanos, a partir desse questionamento o indivíduo
passa a por em prova a validade dessas instituições,
dessas convenções criadas por nós mesmos. Por exemplo,
se perguntarmos a opinião de alguém de uma cidadezinha
do interior (que cultiva suas crenças e costumes) sobre
o sexo antes do casamento certamente esse alguém vai
ser contra, devido exatamente às suas crenças e costumes
(instituições da ordem social). Mas se um jovem dessa
mesma cidade se manifestar a favor e afirmar que não
há problema na prática do sexo antes do casamento, certamente
será repreendido, mas esse jovem, muito provavelmente,
teve acesso à uma gama de informações diferentes, que
tornou possível a sua relativização do assunto. Ora,
esse jovem será repreendido por que ele não cumpriu
as expectativas dos valores de sua sociedade, logo será
tido como diferente.
Quando,
nós, em sã consciência (ou não) questionamos os moldes
determinados pela nossa sociedade, quando vamos de encontro
à essa rede de convenções e instituições impostas pela
sociedade e tentamos modificá-las de algum modo, quando
tentamos "sair" dessa rede, estamos tomando uma atitude
contracultural.
É
preciso estarmos cientes do que somos e fazemos, não
estou aqui dizendo que "dentro" da contracultura estaremos
"fora" dessa rede de convenções, pois é impossível que
isso aconteça totalmente, os que o fazem são considerados
loucos e incapazes do convívio em sociedade. O que,
em minha opinião, deve-se constituir como nosso dever
dentro dessa esfera contracultural, é a busca de tornar
o nosso nível de consciência da existência dessa "ordem"
maior e tentarmos não tornar essa rede de convenções
uma verdade suprema da nossa existência. Procurar dentro
(e fora) das nossas possibilidades fazer com que essa
máscara de considerações seja relativizada e que os
padrões sejam postos em questão. Sugiro e sustento que
todos nós, indivíduos pensantes da raça humana, sejamos
loucos por alguns momentos e consigamos "sair" dessa
rede que nos prende e conseguir ver de fora a "normalidade"
do mundo em que vivemos.
Cyro
de Almeida
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