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Desconto da Carochinha

Era uma mulher metida a princesa que queria porque queria ir à festa do presidente. Acontece que ela era uma reles plebéia, traficante de drogas, que morava numa favela e há então uma suposição de que não poderia ir. Seu nome era Cindepreta de Carvão e ela morava com a sua irmã, que vivia dormindo.

Foi aí que ela resolveu chamar o seu vizinho da favela, um mecânico, motoqueiro, que era profissional nessas mutretas de falsificação. Como os dois tinham uma certa amizade, ele aceitou ajudá-la com prazer, desde que fosse... com prazer.

Como ele fumava muita maconha, teve uma viagem muito louca e resolveu construir um carro no formato de uma maçã. A mulher, que não estava para trás, ao ver a comida, sentiu uma certa larica e foi atrás de alguém que vendesse maçãs. Por sorte, havia uma velhinha vendendo e ofereceu-lhe uma de graça. Cindepreta não teve dúvidas. Só faltou comer a mão da velha. Insatisfeita, ainda puxou um canivete e roubou toda a mercadoria da coitada. Em seguida, foi até a sua casa e comeu todas as frutas da cesta. Depois, tomou banho e fantasiou-se de rica. Interessante era o seu tamanco, pois era feito de maconha.

A noite, Cindepreta foi até a casa do seu vizinho e ele arranjou as senhas falsificadas, passaporte, identidade, carteira de motorista, dinheiro, carteira de estudante... Opa, peraí. Carteira de estudante não, porque a deste ano ainda não saiu, mas arranjou todas as falsificações possíveis. Ele se fantasiou de Jarbas e os dois entraram no carro em forma de maçã. Ele foi dirigindo e ela foi no banco de trás, como fazem todas que querem se dizer damas.

Eles chegaram às oito horas da noite e ela ficou curtindo a festa, satisfeitíssima, enquanto o motoqueiro ficou do lado de fora, pois não dava valor a essas breguices.

Mas, quando o relógio da torre da igreja badalou à meia noite, aconteceu o inesperado. Ela sentiu uma tremenda dor de barriga, por causa das maçãs, que deviam estar cheias de agrotóxicos. Só que ela não sabia onde ficava o banheiro naquela casa tão grande e, impaciente, correu para a maçã gigante, deixando cair um de seus tamancos no chão. Como o Jarbas falso não estava lá, pois devia ter dado uma volta, ela mesma pisou fundo e foi à procura de um banheiro na cidade.

Ela procurava e não encontrava. O carro já estava com um cheiro estranho. Uma viatura da polícia começou a persegui-la, pois ela estava em alta-velocidade.

Ela foi embrenhando-se pelas trilhas de uma floresta que havia próxima da cidade para livrar-se dos policiais e acabou atropelando um lobo, jogando seu corpo à descida de um morro e rolando-o até um riacho seco.

O lobo estava na trilha à procura de maçã, pois estava com uma baita fome. É que ele era um lobo vegetariano e estava querendo apenas lanchar.

O que aconteceu foi que, na tarde daquele dia, bateu aquela fome e ele resolveu sair à procura da velha que vendia maçãs, que costumava vender pela floresta também. Ele foi caminhando, afoitando-se pelas trilhas entre as frondosas árvores, sem calcular seu conhecimento da região. E foi aí que ele ultrapassou os seu limites e, quando percebeu, já era tarde. Estava perdido. A noite já dominava as trilhas e sua caminhada foi dificultada.

O tempo passava e ele se sentia cada vez mais perdido. O pior é que ele não conseguiu achar a mulher da maçã. Sua barriga roncava estupidamente.

Muito tempo depois, quando já parecia ser meia-noite e o lobo estava morto de cansado, ele ouviu um ruído. O som se aproximava e parecia ser de automóvel. O lobo se aliviou e ficou esperançoso, supondo que aquilo seria a sua salvação. Quando estava bem próximo, ele viu aquele carro no formato de uma maçã gigante aproximando-se e ficou sinalizando para pararem. Sem sucesso. O carro o atropelou, jogando seu corpo à descida de um morro e rolando-o até um riacho seco.

Foi aí que Cindepreta perdeu o controle do carro e bateu. Como não estava usando cinto de segurança, chocou-se contra o painel, liberou o que prendia e morreu na hora.

- Você tem o direito de permanecer calada... - disse um dos policiais a ela.

O seu enterro foi feito no lixão, com a presença de seus sete trombadinhas, que sempre a ajudavam no tráfico de drogas e seu motoqueiro encantado, que acendeu seu último baseado em homenagem à pobre princesa falecida. Depois do enterro, o motoqueiro não perdeu tempo. Tratou de comprar um despertador e utilizou para acordar a irmã de Cindepreta. Era uma feia dorminhoca, mas quebrava o galho. Assim, ele continuou a satisfazer desejos.

Lá no riacho, após o atropelamento, o lobo permaneceu desmaiado durante algum tempo e, quando acordou, estava mais desnorteado ainda. Olhou ao seu redor, todo dolorido, deu um suspiro e deitou-se novamente, até adormecer.

O sol raiou e ele acordou com um monte de mosca pousando em suas perebas e na sua boca. A luz o despertou e o fez tomar coragem para prosseguir na procura do caminho de volta à sua caverna ou ainda da velha que vendia maçãs, mesmo estando ferido, todo dolorido, sujo e com manchas de sangue por todo o corpo.

Sua sede e fome aumentavam e suas dores o perturbavam, mas ele não desistiu. Com esperanças de brasileiro, o lobo caminhou mais e mais trilhas... E foi assim que ele achou um motivo para sorrir e esquecer suas lamentações quando viu, de longe, três pequenas cabanas. Ah! Finalmente alguém para ajudá-lo! Ele correu até próximo e ficou observando por detrás de uma moita. Havia três indefesos porquinhos tomando Coca-Cola. Ele não controlou suas emoções e deu um salto para a frente deles com um sorriso tão imenso, que sua boca parecia engolir as próprias orelhas.

Ao verem aquele lobo com dentes enormes e a língua de fora, toda manchada de sangue, os porcos não tiveram outra reação. Correram desesperados para as suas cabanas. Cada um entrou numa. Uma era de papel de seda, a outra era de saco de pão e a outra era de chumbo revestido com fibra de carbono, titânio e blindagem de nave espacial. O lobo não entendeu aquela reação, mas não podia desistir. Correu até a casa de papel de seda e bateu educadamente na porta. Acontece que o porquinho se descontrolou, rasgou a parede de sua casa e correu para a de seu amigo, a de saco de pão. O lobo não entendia. Ainda persistente, foi até a casa feita de saco de pão e novamente bateu na porta, mas os porquinhos, descontrolados, derrubaram a parede da casa e correram para a casa de chumbo revestida com fibra de carbono, titânio e blindagem de nave espacial. O lobo não agüentava mais ver aquilo. Ele só queria ajuda! Mas ele era persistente. Sabe aqueles caras que resolvem grudar no teu pé? Pronto. Assim era esse lobo. Ele bateu na porta de novo e parecia automático. Imediatamente, os porquinhos se descontrolaram e começaram a se debater contra as paredes da casa de chumbo revestida com fibra de carbono, titânio e blindagem de nave espacial. Acontece que as paredes eram de chumbo revestidas com fibra de carbono, titânio e blindagem de nave espacial e, como eram paredes de chumbo revestidas com fibra de carbono, titânio e blindagem de nave espacial, eles não podiam derrubá-las, de acordo com a terceira lei de Newton. Assim que eles perceberam isso - depois de uns quinze minutos - tentaram fugir pela chaminé, só que esta tinha um sistema de segurança anti-invasores de alta tensão e os três morreram eletrocutados. Fez até uma fumacinha. Até que a casinha ficou bonitinha.

Inocentemente, o lobo continuou batendo na porta, mas ninguém atendia. Ele desistiu e continuou à procura de alguém.

Desesperado, ele foi arrastando-se pelas trilhas, tentando livrar-se da morte. Estava quase desmaiando, quando viu outra casa. E esta o deixou com boas esperanças, pois havia uma tal placa indicando "casa da vovó". Ele cruzou os dedos e foi até a porta. Ela estava entreaberta e ele resolveu dar uma espiadinha. Lá dentro, havia uma velhinha deitada na cama que o viu imediatamente e não teve outra reação. Como se fosse novidade, ela ficou desesperada, pegou o telefone e ligou para a polícia. O lobo não entendia o porquê daquilo tudo, mas a velha não quis nem saber. Começou a espancá-lo com a sua bengala. De repente, apareceu uma garotinha com uma toca vermelha e uma saborosa cesta de doces. Assim que viu aquela cesta, ele não suportou. Caiu no chão e morreu de fome.

A velha pegou os doces e começou a comer, enquanto a polícia não chegava.

Três horas depois, ela teve um treco e morreu de diabete. Nesse momento, os policiais chegaram e não tiveram dúvidas. Prenderam a garotinha da toca vermelha por ter assassinado o lobo e a velha e levaram-na para um centro de reabilitação.

Lá, ela conheceu uma turma barra-pesada e acabou morrendo de overdose.

Você deve estar então se perguntando: "E aquele tamanco feito de maconha?"

O presidente encontrou e mandou investigarem. Ele descobriu tudo e mandou fuzilarem o motoqueiro, a irmã de Cindepreta, os sete trombadinhas e acabou atingindo a pobre velhinha que vendia maçãs.

Izan Leão.



Fiquem à vontade para se expressar.