A
questão da eutanásia provoca, por si só, discussões
entusiasmadas tanto defendendo quanto condenando a
prática. Em uma sociedade que tem uma consciência
judaico-cristã profundamente enraizada, como no Brasil,
essas discussões se tornam ainda mais acirradas. Essa
consciência, porém, não deve nos impedir de analisar
o tema com uma certa frieza e uma boa dose de discernimento.
Muito
se diz que ninguém tem o direito de tirar a vida de
outra pessoa. Isso é óbvio. Entretanto, em se tratando
da eutanásia, o próprio paciente que se encontra em
estado terminal é quem teria o poder de decisão. Decisão
sobre a própria vida. Já imaginou se não pudéssemos
escolher que carreira vamos seguir, o que vamos consumir,
como vamos nos vestir? Se podemos decidir assuntos
como esses, assumindo os riscos que nossas resoluções
podem, eventualmente acarretar, não poderíamos decidir
se queremos ou não viver?
É
impossível impor um desejo a alguém. Além disso, não
se pode imaginar o sofrimento pelo qual um doente
passa quando não tem mais condições de viver. Em inúmeros
casos, pacientes com câncer têm que tomar, sistematicamente,
injeções de morfina para suportarem vivos a dor que
sentem. Viver assim é digno? Aliás, viver assim é
viver?
Os
que abominam a eutanásia cometem o absurdo de dizer
que, se determinada pessoa está sofrendo com uma doença
pavorosa e sem nenhuma perspectiva de vida, é porque
de certa forma o padecimento é merecido, para pagar
algo de ruim que essa pessoa teria feito. Isso é inaceitável!
Ninguém, por pior que seja, merece tamanho sofrimento,
nem nada justifica esse tipo de pensamento. Atender
ao desejo de um paciente que opta pela eutanásia é
uma questão de humanidade, de compaixão. Se for provado
cientificamente que o paciente não tem mais chances
de viver, que não há mais recursos a serem utilizados,
e se o doente expressa sua vontade de abreviar a dor,
o mínimo que se deve fazer é realizar seu desejo.
É
lógico que a eutanásia não pode nem deve ser praticada
em qualquer situação. Alguém pode estar fisicamente
saudável, porém mentalmente perturbado e pedir para
morrer por um motivo qualquer. Em casos como esse,
o que se deve fazer é orientar e dar o devido cuidado
ao indivíduo, mostrar que existem outros caminhos,
outras opções que podem ser escolhidas. Mas há pessoas
que não tem escolha. E para elas, deveria ser dado
o direito de não mais sofrer, não mais sentir dor.
Quando
estamos doentes, tomamos algum remédio para voltarmos
a ter uma vida saudável e prazerosa, sem os infortúnios
da doença. Para pacientes em estado terminal, não
existe mais nenhum medicamento ou técnica médica que
lhes devolva o sabor de viver plenamente. Esses pacientes
devem esperar, dolorosa, e muitas vezes demoradamente,
a hora da sua morte?
Alguns
afirmam que pedir para morrer é muito fácil e que
tal atitude é sinônimo de fraqueza, que deve-se enfrentar
a doença de frente. Talvez esse pensamento esteja
correto para algumas pessoas, mas para outras não.
A vida não deve ser um fardo a ser carregado. Da mesma
forma que não podemos obrigar ninguém a morrer, não
deveríamos obrigar a viver. Além disso, temos que
parar de ter medo da morte. Ela vem para todos, não
é mesmo? E vai ver nem é um negócio tão assombroso
assim.
Irving
Alves.