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DE
TUDO UM POUCO
Macho
e fêmea humanos em solene processo de corte. Patati-patatás,
bla-blá-blés, me lembro de você não sei de onde... Mas
eis que surge o momento da revelação, ou melhor, da
adequação do objeto de desejo a um perfil estereotipado,
agradável ou não, através da pergunta: e aí, que é que
você escuta? A boneca cibernética (ou o eletro-macaquito)
resolve então apelar pro seu armazém de empacotados:
''de tudo um pouco''...
Dependendo
do raciocínio de quem escuta, esta resposta pode ser
um desastre. Não se engane pela simplicidade daquelas
palavras: sua natureza é complexa e sua solução inevitavelmente
fará cair alguns véus da personalidade do entrevistado.
Ao ser indagado sobre seu gosto musical, tenha certeza,
você está sendo questionado sobre suas comoções, seu
nível de escapismo. A dúvida implícita é sobre sua profundidade
de transcendência, seu lado abstrato e indefinível.
A falsa multiplicidade de gosto escondida na frase ''de
tudo um pouco'' revela, aos ouvidos mais atentos, uma
superficialidade comum. Mas a visão do fracasso é apenas
um lado da interpretação. O outro talvez esteja na próxima
matéria científica da Carícia.
Aquele
belo chavão de quatro palavras ---- que mais tem a ver
com o medo da reprovação do que com o ecletismo de fato
---- nada mais é do que o reflexo da cultura do excesso
e da multiplicidade fragmentária no raciocínio musical.
Neste mundo do capital onipotente, onde aprendemos desde
pequenos a lamber migalhas de tudo o que é conhecimento,
a arte jamais poderia sair ilesa. Seu caráter indefínível
é banalizado e simplificado, e o que antes era uma saída
para o homem tornou-se mais um pacotinho de chips.
Mas
existe prazer naquele pacotinho de chips, diriam. Existe
sim. O prazer é necessário. A preguiça é um direito.
Criticar o prazer é abraçar a ética burguesa da eficiência,
da supervalorização do trabalho, esmagador do homem.
Mas homens não são esponjas. O erro da modernidade está
exatamente em alimentar o comichão consumista através
de uma ambígua valorização do hedonismo. A experiência
estética tem exigências que vão além do prazer, sem
prescindi-lo. Uma delas é a perigosíssima percepção
crítica.
Mas
vamos também enxergar pelo lado bom. O ''de tudo um
pouco'' é uma confissão. É o assumir da incapacidade
de se entregar à contemplação, à reflexão; da incapacidade
de ser devagar quando tudo corre para a autofagia. ''Olha,
eu não tenho tempo de ir até o fim. Preciso manter meu
repertório em dia. Preciso escutar de tudo um pouco
para poder fazer essa lista.''
Não
existe uma maneira ideal de se contemplar música, assim
como qualquer gênero artístico. Mas existem as roupagens
sob as quais a música é escondida para atender aos anseios
superficiais da contemporaneidade. Refletir é calar,
é parar. Mas, no mundo da pressa, parar é se desligar,
é morrer diante do todo alimentado pelo frenesi da ansiedade.
Não há nada mais obsoleto do que a profundidade.
E
olha lá o eletro-macaquito concluindo seu imenso repertório,
orgulhoso diante de olhos pasmos. A boneca se encanta:
seria a imensa lista dele proporcional ao tamanho de
seu... Olha, é bem possível. Assim como a lista que
ele fará na próxima semana, tão durável quanto o último
hit. Quem sabe até mesmo você, menina bonita e cheia
de vida, do jeito que vão as coisas, durará nos braços
dele tanto quanto um Mcdonald's em nossos inocentes
intestinos.
Igor
Matheus
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