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Pedras
Sua avó estava doente e ele precisava recolher as raízes
de uma erva encontrada apenas em lugares escuros e úmidos.
A jornada era longa e arriscada. Seria necessário atravessar
o rio das pedras, escalar o morro após o cemitério e
recolhê-las, então, numa gruta que se encontrava sobre
tal morro. Estava ele caminhando na floresta, quando
passou por uma bifurcação. Assim que virou para o lado
esquerdo, que era para onde devia seguir para chegar
ao seu objetivo, tropeçou numa pedra e caiu no chão.
- Se eu fosse tu, não me arriscaria tanto por essa velhinha,
que já viveu muito mais do que alguém tão jovem.
Era uma voz suave, extremamente agradável...
- Hã? Quem falou? Há alguém aí?
- Fui eu, seu bobo! Não me vês?
Ele se surpreendeu ao perceber que falava com a pedra
em que tropeçara.
- Mas como? Falo com uma pedra?!
- E o que há de mais nisso? Vós não podeis falar?
- É... Mas tu és uma pedra!
- É que nós só falamos quando há realmente necessidade.
- Necessidade? E há alguma agora?
- Há sim! Tu segues o rumo do extremo perigo. Estás
indo em direção ao rio das pedras e lá há muitas de
minha espécie. Eu as conheço bem. Juntas, são escorregadias
e traiçoeiras! Não podes confiar nelas! Elas tentarão
acabar contigo! Com certeza, isso não seria bom. Inclusive,
nem mais haveria quem cuidar de tua avó.
- E como posso ter certeza disso?
- Não precisas ter certeza. Apenas te previno, pois,
como disse, eu as conheço bem.
- E tu? Também não és uma pedra?
- Vês mais alguma por perto? Estou longe delas. És homem
e sabes como juntos sois traiçoeiros. Se és bom, sabes
que entre vós existem exceções. Conosco também acontece
o mesmo. Por um momento, ele ficou pensativo, observando
ao seu redor com a mente direcionada a outras imagens
em seu interior... Em seguida, perguntou:
- E o que faço, então?
- Segue o caminho da direita.
- Mas esse caminho só me levará até o poço de água salobra.
E dizem que há lobos por essa região.
- É... vejo que és esclarecido. Podes levar-me contigo,
se desejas segurança. Antes de tudo, somos muito observadoras
e conhecemos muito bem diversos movimentos. Sei que
posso enfrentar os lobos, se necessário.
- E quanto às raízes?
- Exato. Não conheces? No caminho, há um pequeno atalho
que te levará até uma pequena gruta. Lá, também há dessas
raízes.
- E por que queres ajudar-me?
A pedra sorriu.
- Assim são os homens. Inseguros e desconfiados. É claro
que não posso reclamar disso, pois, minha advertência
tem completa relação com tal sentimento. Sei que não
se deve compreender um gesto de assistência sem interesses.
Então, para deixar-te mais seguro, trabalhemos um para
o outro. Estou sozinha e ressecada. Preciso de água
e gostaria de uma companhia. Eu te ajudo e tu garantes
que me levarás até o poço. Lá, há água em abundância
e, diferente do rio das pedras, há algumas amigas com
quem posso contar. Preciso mesmo ficar por lá. ...
Por algum tempo, sua mente refletiu sobre as palavras
da pedra... Até que o fez decidir-se.
- Está bem. Fazemos esse trato, então.
Ele se desviou para o lado direito e seguiu à procura
da raiz com a pedra na mão. O caminho desconhecido o
mantinha trêmulo e sensível. Após um certo tempo de
caminhada, passando por entre frondosas árvores, ele
ouviu um som característico vindo detrás de arbustos.
A insegurança percorria fortemente pelas suas veias
e adquiria cada vez mais potência à medida em que o
som se aproximava e a certeza se manifestava. Só podia
ser algum lobo! E era! O animal surgiu dentre a vegetação
e, imediatamente, ameaçou atacá-lo. Seu susto causou
no lobo uma sensação de ameaça e, por isso, o lobo partiu
em direção a ele, mas, de uma forma misteriosa, o braço
onde estava a pedra se moveu involuntariamente, atirando-a
com precisão sobre a cabeça do animal, que, em seguida,
caiu no chão desmaiado. Um tanto confuso, ele olhou
para a pedra, sorriu e passou a sentir-se mais seguro.
Assim, seguiram caminho até chegar ao atalho por ela
referido. Ele se desviou, andou um pouco e realmente
encontrou a gruta. Recolheu as raízes e voltou para
a trilha por onde seguia. A pedra, então, falou:
- Cumpre o nosso trato e leva-me até o poço.
Ele não podia contrariar. Caminhou pouco mais, até chegar
ao local. Mais vozes, então, surgiram:
- Grato, pedra. Vejo que realmente trouxeste-me alimento.
- E não deixaria de trazer.
- Como assim, alimento?! O que sucede?! O poço também
fala?!
- Claro que sim. Todos nós falamos, não é, pedra?
- Claro, poço.
- Então, vamos logo com isso, que eu estou faminto!
- Faminto?... Não entendo!
- Deixa. Minhas irmãs dão uma forcinha - falou a pedra,
num tom frio e calmo...
Não havia mais vozes. O silêncio soprava com um som
úmido e sombrio. A sensação de perigo parecia moer o
seu corpo. A insegurança voltou a circular pelas suas
veias com ainda mais potência, alimentando a presença
do medo. Ele estava imóvel, trêmulo e desequilibrado.
Seus olhos não paravam de mover-se. Sem saber o que
fazer, sem saber o que pensar, sem saber para onde olhar,
foi no momento em que a imagem sombria do poço arranhou
a sua mente, que ele, finalmente, manifestou um primeiro
impulso de movimento, com a intenção de afastar-se daquele
local. No primeiro passo, escorregou nas inúmeras pedras
que havia sob seus pés e, sem conseguir controlar, apenas
pela fraqueza causada pela sua instabilidade mental,
rolava para o sentido do interior do poço. Cada vez
que tentava não acreditar naquilo, seu próprio corpo
parecia responder com mais distúrbio e dirigia-se cada
vez mais previsivelmente para o indesejável destino.
Finalmente, o maior de todos os medos deixou sua mente
extremamente prolixa quando seus sentidos, mesmo que
incônditos, pareceram reagir como se já estivessem em
queda livre numa abafada umidade e na ausência da luz.
Antes de ser engolido, ele ouviu uma voz:
- Eu avisei: não confies nas pedras.
O poço se mostrou satisfeito, provocando uma ruidosa
eructação. Ele, então, acordou e percebeu que estava
no lugar onde tropeçou. O alívio foi imediato, assim
que a consciência o convenceu de que tudo fora apenas
um sonho. Pensativo, levantou-se lentamente e, enquanto
batia-se para tirar a poeira de seu corpo, casualmente,
direcionou seus olhos para a pedra em que tropeçara.
Parou imediatamente e, logo em seguida, chutou-a com
os olhos fechados e a cabeça baixa. Manteve-se assim
por um curto tempo e então balançou sua cabeça para
os lados com uma expressão de desconfiança, acusando-se
de tolo por estar tão pensativo por causa de um delírio.
Terminou de bater-se e, decidido, seguiu o caminho da
esquerda, em direção ao rio. Chegando lá, ele começou
a atravessar, procurando ter o máximo de cuidado com
as pedras, mas foi inevitável. Escorregou de uma delas
e bateu a cabeça fortemente em outra. O sangue se misturou
com a água e seu corpo passou a seguir a correnteza.
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