Pedras
Textos
Breve reflexão sobre o poder! das armas e das palavras.
De tudo um pouco
Carta ao quase Amorim II - No limite da razão
Um Amigo meu
Zine ou Fanzine, o que são? qual a diferença?
Brasil, Brasil!


Anarquismo
Ascenção libertária
Agonia
Movimento hippie atual-
artesões, BR, micróbios,
camelôs e um modo de vida alternativo
Desconto da carochinha
Editorial de Contracultura
Contracultura
doprópriobolso e etcs...
Fazer a cabeça
Mistura de culturas
Da contracultura à loucura
Ascenção e queda da paixão de um lombrado
Guia prático para quem viaja fora do Brasil
Tava andando
A história do uso cultural da Cannabis Sativa e como esta afeta a liberdade em nosso país
Consciência individual - uma forma de pensar coletivo
Pedras
Noções de grandezas gigantes: tamanhos e proporções.
Uma Alternativa à violência nas escolas: Heavy Metal.
Eutanásia
Os intocáveis


Textos

Pedras

Sua avó estava doente e ele precisava recolher as raízes de uma erva encontrada apenas em lugares escuros e úmidos. A jornada era longa e arriscada. Seria necessário atravessar o rio das pedras, escalar o morro após o cemitério e recolhê-las, então, numa gruta que se encontrava sobre tal morro. Estava ele caminhando na floresta, quando passou por uma bifurcação. Assim que virou para o lado esquerdo, que era para onde devia seguir para chegar ao seu objetivo, tropeçou numa pedra e caiu no chão.
- Se eu fosse tu, não me arriscaria tanto por essa velhinha, que já viveu muito mais do que alguém tão jovem.
Era uma voz suave, extremamente agradável...
- Hã? Quem falou? Há alguém aí?
- Fui eu, seu bobo! Não me vês?
Ele se surpreendeu ao perceber que falava com a pedra em que tropeçara.
- Mas como? Falo com uma pedra?!
- E o que há de mais nisso? Vós não podeis falar?
- É... Mas tu és uma pedra!
- É que nós só falamos quando há realmente necessidade.
- Necessidade? E há alguma agora?
- Há sim! Tu segues o rumo do extremo perigo. Estás indo em direção ao rio das pedras e lá há muitas de minha espécie. Eu as conheço bem. Juntas, são escorregadias e traiçoeiras! Não podes confiar nelas! Elas tentarão acabar contigo! Com certeza, isso não seria bom. Inclusive, nem mais haveria quem cuidar de tua avó.
- E como posso ter certeza disso?
- Não precisas ter certeza. Apenas te previno, pois, como disse, eu as conheço bem.
- E tu? Também não és uma pedra?
- Vês mais alguma por perto? Estou longe delas. És homem e sabes como juntos sois traiçoeiros. Se és bom, sabes que entre vós existem exceções. Conosco também acontece o mesmo. Por um momento, ele ficou pensativo, observando ao seu redor com a mente direcionada a outras imagens em seu interior... Em seguida, perguntou:
- E o que faço, então?
- Segue o caminho da direita.
- Mas esse caminho só me levará até o poço de água salobra. E dizem que há lobos por essa região.
- É... vejo que és esclarecido. Podes levar-me contigo, se desejas segurança. Antes de tudo, somos muito observadoras e conhecemos muito bem diversos movimentos. Sei que posso enfrentar os lobos, se necessário.
- E quanto às raízes?
- Exato. Não conheces? No caminho, há um pequeno atalho que te levará até uma pequena gruta. Lá, também há dessas raízes.
- E por que queres ajudar-me?
A pedra sorriu.
- Assim são os homens. Inseguros e desconfiados. É claro que não posso reclamar disso, pois, minha advertência tem completa relação com tal sentimento. Sei que não se deve compreender um gesto de assistência sem interesses. Então, para deixar-te mais seguro, trabalhemos um para o outro. Estou sozinha e ressecada. Preciso de água e gostaria de uma companhia. Eu te ajudo e tu garantes que me levarás até o poço. Lá, há água em abundância e, diferente do rio das pedras, há algumas amigas com quem posso contar. Preciso mesmo ficar por lá. ...
Por algum tempo, sua mente refletiu sobre as palavras da pedra... Até que o fez decidir-se.
- Está bem. Fazemos esse trato, então.
Ele se desviou para o lado direito e seguiu à procura da raiz com a pedra na mão. O caminho desconhecido o mantinha trêmulo e sensível. Após um certo tempo de caminhada, passando por entre frondosas árvores, ele ouviu um som característico vindo detrás de arbustos. A insegurança percorria fortemente pelas suas veias e adquiria cada vez mais potência à medida em que o som se aproximava e a certeza se manifestava. Só podia ser algum lobo! E era! O animal surgiu dentre a vegetação e, imediatamente, ameaçou atacá-lo. Seu susto causou no lobo uma sensação de ameaça e, por isso, o lobo partiu em direção a ele, mas, de uma forma misteriosa, o braço onde estava a pedra se moveu involuntariamente, atirando-a com precisão sobre a cabeça do animal, que, em seguida, caiu no chão desmaiado. Um tanto confuso, ele olhou para a pedra, sorriu e passou a sentir-se mais seguro. Assim, seguiram caminho até chegar ao atalho por ela referido. Ele se desviou, andou um pouco e realmente encontrou a gruta. Recolheu as raízes e voltou para a trilha por onde seguia. A pedra, então, falou:
- Cumpre o nosso trato e leva-me até o poço.
Ele não podia contrariar. Caminhou pouco mais, até chegar ao local. Mais vozes, então, surgiram:
- Grato, pedra. Vejo que realmente trouxeste-me alimento.
- E não deixaria de trazer.
- Como assim, alimento?! O que sucede?! O poço também fala?!
- Claro que sim. Todos nós falamos, não é, pedra?
- Claro, poço.
- Então, vamos logo com isso, que eu estou faminto!
- Faminto?... Não entendo!
- Deixa. Minhas irmãs dão uma forcinha - falou a pedra, num tom frio e calmo...
Não havia mais vozes. O silêncio soprava com um som úmido e sombrio. A sensação de perigo parecia moer o seu corpo. A insegurança voltou a circular pelas suas veias com ainda mais potência, alimentando a presença do medo. Ele estava imóvel, trêmulo e desequilibrado. Seus olhos não paravam de mover-se. Sem saber o que fazer, sem saber o que pensar, sem saber para onde olhar, foi no momento em que a imagem sombria do poço arranhou a sua mente, que ele, finalmente, manifestou um primeiro impulso de movimento, com a intenção de afastar-se daquele local. No primeiro passo, escorregou nas inúmeras pedras que havia sob seus pés e, sem conseguir controlar, apenas pela fraqueza causada pela sua instabilidade mental, rolava para o sentido do interior do poço. Cada vez que tentava não acreditar naquilo, seu próprio corpo parecia responder com mais distúrbio e dirigia-se cada vez mais previsivelmente para o indesejável destino. Finalmente, o maior de todos os medos deixou sua mente extremamente prolixa quando seus sentidos, mesmo que incônditos, pareceram reagir como se já estivessem em queda livre numa abafada umidade e na ausência da luz. Antes de ser engolido, ele ouviu uma voz:
- Eu avisei: não confies nas pedras.
O poço se mostrou satisfeito, provocando uma ruidosa eructação. Ele, então, acordou e percebeu que estava no lugar onde tropeçou. O alívio foi imediato, assim que a consciência o convenceu de que tudo fora apenas um sonho. Pensativo, levantou-se lentamente e, enquanto batia-se para tirar a poeira de seu corpo, casualmente, direcionou seus olhos para a pedra em que tropeçara. Parou imediatamente e, logo em seguida, chutou-a com os olhos fechados e a cabeça baixa. Manteve-se assim por um curto tempo e então balançou sua cabeça para os lados com uma expressão de desconfiança, acusando-se de tolo por estar tão pensativo por causa de um delírio. Terminou de bater-se e, decidido, seguiu o caminho da esquerda, em direção ao rio. Chegando lá, ele começou a atravessar, procurando ter o máximo de cuidado com as pedras, mas foi inevitável. Escorregou de uma delas e bateu a cabeça fortemente em outra. O sangue se misturou com a água e seu corpo passou a seguir a correnteza.





Fiquem à vontade para se expressar.